A cantora careca
A cantora careca
A CANTORA CARECA é um espetáculo tragicómico da vida humana reduzida a um automatismo burguês. É claramente um ataque à sociedade onde impera a falta de individualidade, a aceitação dos slogans pelas massas, as ideias pré-concebidas que privam o indivíduo da liberdade intelectual. As personagens já não conseguem falar porque já não conseguem pensar e já não conseguem pensar porque já não conseguem agir, não conseguindo desse modo sentir paixões.
Os paralelismos entre estas personagens e o indivíduo contemporâneo podem encontrar-se nos discursos vazios das personagens, que assim cessam de existir enquanto sujeitos pensantes, sinónimo da alguma massificação da liberdade individual, onde impera a uniformização do pensamento ditada pelas redes sociais, pela comunicação social e pelos mecanismos políticos e religiosos. Ainda que nos seja prometida e transmitida a sensação de liberdade, de livre pensamento e expressão da nossa vontade individual, tudo acontece segundo parâmetros pré-definidos, tidos como ideais, que são o meio para a aceitação do indivíduo no seio da sociedade. Deste modo, a aparência e a estandardização das ideias assumem o papel primordial nas relações humanas. As personagens percorrem caminhos circulares, sem que se possa identificar um propósito para os seus percursos. O fim é tragicamente igual ao princípio. A angústia das personagens é traduzida por situações cómicas e desarticuladas das leis lógico-racionais, pondo em evidência o seu lado trágico. O carácter cómico acentua a imagem do indivíduo em desequilíbrio, onde o tempo e a ação se tornam incontroláveis e vazias de sentido. Desta forma, interroga-se o sentido da condição humana face a um itinerário que se afigura absurdo.
Ionesco parte da banalidade da vida e desconstrói-a através de discursos desarticulados, fragmentados, onde as palavras assumem novos significados. Assistimos deste modo,, à tragédia da linguagem. Uma linguagem fossilizada, fatal para a liberdade de pensamento, que se renova na tentativa de encontrar a essência do mundo e da humanidade. Rompendo com as categorias aristotélicas, recusando a noção de mimesis e renovando a importância dos elementos teatrais (personagens, espaço, ação, tempo), Ionesco não expõe o absurdo do mundo através de uma linguagem lógica, argumentativa e estruturada. A renovação da linguagem é uma forma de mostrar a desarticulação humana face ao mundo ilógico onde as personagens se inserem, pois vivem num mundo que perdeu a sua dimensão metafísica e, por isso, todo o mistério. Para restaurar o mistério, é necessário ver e sentir o absurdo do comum e da linguagem, para depois se conseguir ver para além da realidade aparente.
O modelo dramatúrgico que Ionesco nos apresenta em A CANTORA CARECA fomenta a interrogação do espetador face ao objeto artístico, forçando-o a abandonar a atitude passiva de entretenimento e, através da perplexidade, a pensar de modo autónomo. Ao romper com as estruturas aristotélicas de organização do real espera-se que o espetador desenvolva uma outra lucidez, assente numa epistemologia fundada numa ‘autopoiesis’ (R. H. Maturana).
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Texto
Eugène Ionesco
Encenação
Ivo Alexandre
Interpretação
Anabela Faustino, Anna Leppänen, David Esteves, Diana Lara, Ivo Alexandre e João Reixa
Tradução
Joaquim Pena e Tiago da Câmara Pereira
Desenho de luz
Janaina Gonçalves
Cenografia
João Ribeiro
Figurinos
Ana Simão
Assistência de Encenação
Anabela Faustino
Comunicação e Imprensa
Joana Pajuelo Alves
Gestão
Tiago da Câmara Pereira
Produção
DOIS
Estrutura subsidiada pelo Ministério da Cultura - Direção Geral das Artes
Estreia a 7 de Setembro de 2021 - Boutique da Cultura (Sala Estúdio) - Lisboa
Estreia Online a 29 de Outubro de 2021