A festa
A festa
Texto de uma riqueza particular no contexto da dramaturgia de Spiro Scimone, A FESTA mantém o interesse do autor por colocar em cena a banalidade da vida quotidiana, que é constantemente ameaçada por condicionalismos internos.
A peça é temperada por uma comicidade inesperada que frustra as expectativas aparentemente prenunciadas pela ação dramática, que parece encerrar somente um potencial para o desenvolvimento de um drama trágico, particularmente exacerbado, neste caso, pelo acréscimo do peso dos rituais familiares.
Pautada por sucessivas incapacidades de comunicação num núcleo familiar muito restrito, A FESTA exalta o sentido absurdista da pequenez da vida quotidiana, através de uma espiral repetitiva, obsessiva e geradora de conflitos ‘clownescos’ onde as personagens vivem enclausuradas. Análoga ao horizonte traumático da experiência de isolamento familiar, exacerbada pelos condicionalismos à sociabilidade impostos pelos estados de emergência recentes, a pertinência desta peça impõe-se precisamente no domínio da exploração dos modos de relacionamento humano no seu núcleo presuntivamente mais próximo e natural, parodiando-se as tensões subterrâneas, os conflitos indissolúveis e, no fundo, a ausência de compreensão e comunicação que aí, muitas vezes, impera. Na esteira da substituição do cânone da diegese naturalista, que assume uma preponderância na compreensão do tema central da peça de Scimone, quer pela exploração do não-dito, que extravasa por entre os interstícios do texto, quer pelo ritmo dramático marcado por gestos e silêncios cuja interpretação é propositadamente vaga e aberta, redesenha-se a ideia do quotidiano banal contemporâneo, desmontando-o e tornando-o absurdo - jogando com os tons das palavras, com os silêncios ou o sentido dos gestos, por forma a baralhar os limites da ordem e, assim, questionar a própria demarcação da realidade partilhada que vivemos - abrindo não só um espaço de liberdade artística, mas de possibilidades de reconhecimento e entendimento da diferença no outro.
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Texto
Spiro Scimone
Encenação
Ivo Alexandre
Interpretação
Anabela Faustino, Bernardo Souto e Ivo Alexandre
Tradução
Jorge Silva Melo
Desenho de Luz
Rui Seabra
Gestão financeira
Tiago da Câmara Pereira
Produção
DOIS
Espetáculo apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa
Estreia a 5 de julho de 2023 — Escola do Largo — Lisboa